Nosotros en Donostia

Estar numa sexta-feira à noite em casa diante de uma tela de computador lendo blogs et coetera... Fez-me refletir um pouco... Meu blog que tanto prometi atualizar, anda às moscas desde 13 de dezembro passado... Correria, trabalho, trabalho, trabalho... Então por quê não começar a atualizá-lo com um texto que me devo (ou devo a uma amiga) há muito tempo?

Em 2005 fui agraciado (essa palavra tirei de um texto da APEESP, adorei) com uma bolsa de estudo do governo Espanhol para um curso de atualização de professores de espanhol, ¡por supuesto!.
Bolsa lograda, malas feitas, beijo na namorada e ¡olé toro!
Fiquei dois meses hospedado em Madrid no Colegio Mayor Nuestra Señora de Guadalupe. Havia muitos professores de espanhol de todas as partes do mundo. Tínhamos aulas das 9h às 14h, passeios culturais à tarde e finais de semana livres...
Livres e que eu muito bem soube como preencher, não somente eu, mas alguns outros que resolveram torrar os seus euros recebidos pela bolsa não em mp3, pen drives, topless (se é que me entendem...) e o diabo à quatro da tecnologia... E sim usar o sacro dinheirinho em viagens pela España e Europa, ah sim, esses sim eram os de minha turma!
E numa dessas viagens (vou me deter somente a uma em especial por enquanto, deixo as próximas para outras postagens, boa idéia, vou fazer uma série chamada Viajes por España ou sei lá, isso parece meio piegas...) fui a San Sebastián ou Donostia como preferem alguns radicais bascos.
Essa viagem na realidade começou em Salamanca, pois aí estávamos em uma das excursões do nosso curso. Para mim, era inédito viajar saindo de outro lugar que não fosse Madrid.
Uma colega sérvia, chamada Ivana, havia conseguido carona para Victoria, de lá seguiria caminho para Donostia e disse que poderíamos nos encontrar por lá.
Do grupo, uma professora brasileira chamada Fabiana disse que também queria conhecer a cidade. Perfeito! Uma maluca me acompanharia.
Assim que chegamos a Salamanca nos separamos do grupo e fomos comprar nossa passagem para Donostia na estação de trem. O grupo do colégio retornaria a Madrid às 17h e acho que conseguimos passagem para as 23h.
Não foi nada chato ter que ficar mais tempo em Salamanca. Apreciar o por do sol e o acender das luzes na Plaza Mayor, foi maravilhoso!
Até então não conhecia muito bem minha colega de viagem e por tanto podemos, naquele fim de tarde e início de noite, nos conhecer um pouco mais. Desfrutamos de Salamanca. Lembro que ´jantamos´ num lugar que fazia uns sanduíches muito legais e fomos para a estação de trem aguardar a nossa partida.

O trem vinha de Lisboa e tinha como destino Paris. Estava cheio e sinceramente quando entramos nos causou uma péssima impressão. Havia gente deitada no corredor e as cabines estavam fechadas e abafadas. Sentia-se o ar molhado. Nos sentamos um de frente para o outro e ao lado de Fabiana havia duas irmãs portuguesas que iam para Paris. Jovenzinhas e simpáticas, como as do quadro Las meninas de Velázquez.
Conversamos um pouco, os quatro, e mais tarde fui tomar café no trem com as portuguesinhas, aliás, chegar ao vagão onde se vendia o café foi uma aventura: mais gente deitada no chão, fumando, bebendo, cheirando?... E sabe-se mais o quê...
Chegamos de madruga a Donostia, o dia não havia amanhecido.
Conhecemos a cidade, tomamos café, fomos à praia que tinha uma danceteria na areia.
Fomos procurar hotel e aí começou nosso drama... Não havia vagas, era semana de festas em Donostia, o que encontramos seria pecado dizer o preço - na verdade nem me lembro, mas chegamos a conclusão que o cara do hotel estava enfiando a faca, o machado...
Logo a noite chegou e tivemos que passar a noite na praia... A princípio era uma situação complicada até mesmo embaraçosa estava muito preocupado com minha companheira de viagem. Acho que no fim das contas um acabou dando força ao outro para passar por essa pequena provação.
Dormir fora de um quarto, dormir sem cama.
Acho que conseguimos mais ou menos revezar para dormir, mesmo com os guardas rondando e perguntando de onde éramos e expulsando alguns dali. Havia outras pessoas nessa situação ‘ilegal’. Fomos, por uma noite, clandestinos. Me senti um fora da lei.
No dia seguinte buscamos mais uma vez um hotel, sem êxito. Já não era agradável aquela situação. Decidimos então comprar as passagens de ônibus de volta para Madrid para aquela noite, claro. Enfim, dormiríamos um pouco mais confortável no ônibus.
Por sorte, ainda encontramos nossa amiga Ivana. Por sorte, não porque por meio dela encontramos um hotel, e sim por ver a cara amiga.
Por sorte também descobrimos um ônibus que atravessaria a fronteira e visitaria duas cidades na France. Embarcamos na viajem, também. Foi bom conhecer Saint Jean de Luz e Biarritz.
Voltamos e começamos então a mudar de idéia em relação a Donostia, andamos muito pela cidade e almoçamos numa calçada bem no momento de um protesto não autorizado pelo governo, por tanto, repressão. Saímos às pressas com a tropa de choque tentando espalhar a multidão. Tão apressados que chegamos a ficar na frente da turba liderando-os por uns segundos (péssimo lugar para estar...)
À noite houve uma queima de fogos na praia, meu Deus, a coisa mais linda que vi na minha vida. Talvez a de Copacabana seja mais bonita, mas como sempre vi pela televisão... Estar presente em uma queima de fogos com um especialista explicando como tudo funciona é demais.
Ah, esqueci de dizer sobre o seu Antonio de Alicante, era um senhor que conhecemos em Biarritz, junto a sua esposa que não lembro o nome, será que era Rosa?
Seu Antonio nos disse que os responsáveis pela queima de fogos daquela noite eram de Valencia, e que de lá eram os melhores ‘fogueteiros’ de toda da España.
Bom, para mim, apreciar a queima de fogos em Donostia valeu a noite mal dormida na praia.
Aliás, aquela noite na praia passou a ter muitos significados para mim. Um deles foi o de fazer-me lembrar que o que eu estava vivendo ali era algo especial.
Em um mundo onde a estrutura social priva muitos de terem o mínimo de dignidade e força-os a viver na miséria e sem opções, minha companheira e eu tínhamos a liberdade de poder escolher fazer o que quiser pelo menos naqueles dois meses. Talvez, tudo aquilo fosse um puxão de orelha na nossa soberba ou um toque do tipo vai, aproveita e quando puder faça o melhor por você e pelos demais...

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